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05/06/2011

Assentadas rurais no circuito da resistência: invertendo papéis?


Ao assumir o comando de atividades produtivas, as assentadas têm se contraposto aos modelos tradicionais empenhados em naturalizar a divisão do trabalho e da vida cotidiana entre homens e mulheres.

Esta atribuição de papéis, exigências e expectativas são sociais e não biológicas, por isso podem variar no tempo e no espaço. Então, ainda conforme Brumer (2005), os assentamentos de reforma agrária são locais privilegiados para o estudo de gênero, porque a construção desse espaço social tem por base a mudança de condições sociais. Com as novas exigências da modernidade, cresce a necessidade da mulher rural ter outras ocupações para obter renda, então passam a cortar cana nos locais onde antes faziam agricultura de subsistência e extrativismo, passam a fazer faxina e ter outras ocupações nas cidades, ao invés de cuidar de suas próprias casas. De igual modo, elas passam a beneficiar produtos no interior da propriedade para vendê-los. Se a mulher não trabalha para obter dinheiro, sua reputação é cada vez pior (WOORTMANN, 1993).
Essa situação explica, talvez, o número significativo e crescente de mulheres que trabalham como assalariadas fora do assentamento. O fato de desenvolverem atividades destinadas a complementar a renda agrícola parece compatível com a concepção de que sua função produtiva vai subsidiar, ajudar. Em algumas situações, se assalariam como forma de aumentar a renda e o investimento no lote, em outras, aparece claramente a vontade de se livrar das formas, mais ou menos dissimuladas, da violência de gênero. Retrato de um mundo de relações novas, cujas fronteiras lhes são, às vezes, totalmente desconhecidas, as mulheres não participam, via de regra, da tomada de decisões na administração e no planejamento dos lotes. Não têm, em seu passado recente, experiências de um trabalho cooperativo, mas convivem com a combinação das forças reguladas pelo tempo disciplinado. Em muitas situações, as mulheres assentadas, ex-bóias-frias, nunca haviam tido oportunidade de tomar decisões sobre seu tempo de vida e de trabalho. Têm, ainda mais, que ajudar a gerir seu próprio espaço, vindos de um tempo regido pelo olhar do outro, sem poder imprimir a essa gestão, iniciativas próprias.

Mudanças recentes na política nacional de assentamentos acenam para a incorporação de questões de gênero. Foram abertos novos horizontes no campo da titulação, do crédito agrícola e da assistência técnica. Entretanto, há que se examinar o que vem, de fato, significando o conjunto de políticas públicas dirigidas à promoção da autonomia econômica, elemento indispensável para a superação das desigualdades que marcam as vidas das mulheres assentadas e de outras trabalhadoras rurais.
No campo das associações, da politização de espaços de sociabilidade, as mulheres começaram por tomar a dianteira em questões de infra-estrutura, em reivindicações apresentadas à Prefeitura. A partir dessas iniciativas, começaram a discutir formas de complementar a renda, através, por exemplo, de hortas, de granjas, do trabalho em farinheiras, em padarias, dentre outras.
Por outra entrada, a emergência das mulheres rurais nos movimentos sociais proporcionou seu aparecimento como sujeito político, constituindo espaços importantes de ressignificação de suas atividades produtivas, não apenas em relação ao seu trabalho dentro do lote agrícola, mas também fora dele.
Diante desse quadro, as mulheres rurais vêm se mobilizando em esferas política e produtiva em busca de sua auto-afirmação. 
http://www.ufscar.br/neped/pdfs/anais/ALASRU_GT9_Henrique_Carmona_Duval.pdf